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Biografia de Amílcar Mário de Jesus (1895-1960)

por Décio Thadeu
Texto extraído da separata do Boletim da Sociedade Geológica de Portugal, Vol. XIII (1961)


Professor de mineralogia e petrologia no Instituto Superior Técnico, o nome do Prof. Amilcar de Jesus está intimamente associado ao primeiro meio século de existência daquela escola, que se comemora no próximo ano.

Personalidade bem vincada, servida por uma proficência científica rara, contribuiu de modo decisivo para manter vivo o espírito que Alfredo Bensaúde tinha legado ao seu Instituto; foi do número daqueles que, através de todas as contigências, sem esmorecimento ou transigências, defendeu os princípios do seu organizador e primeiro director como os mais próprios ao nosso modo de ser.

É justo recordá-lo, na véspera da comemoração do cinquentenário do Instituto, infelizmente coincidindo com um período de crise que, cremos saberá e poderá vencer, como noutros momentos difíceis do passado, permanecendo fiel aos princípios que fizeram do Instituto Superior Técnico uma escola, na verdadeiro acepção da palavra, pois os que lhe foram impostos há alguns anos provaram não superar ou mesmo igualar aqueles.


Amílcar Mário de Jesus nasceu em Setúbal, em 1 de Março de 1895. Matriculou-se na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no ano de 1916 e terminou a licenciatura em Ciências Histórico-Naturais em 1928.

Ali foi aluno do Prof. Alfredo Augusto Freire de Andrade e assistente de 1922 a 1928.

Em 1918 matriculou-se no Instituto Superior Técnico, onde concluiu o curso de Engenharia de Minas em 1923 e obteve o titulo de engenheiro de minas diplomado em 1924.

Em 1920, foi escolhido para assistente do Prof. Alfredo Bensaúde, a quem sucedeu, como professor, em 1924, lugar que conservou até à aposentação prematura em princípios de 1955.

Durante os anos lectivos de 1935-36 e 1936-37 ocupou, provisoriamente como professor contratado, a vaga deixada pelo Prof. Pereira de Sousa na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa.

Paralelamente à carreira docente, desempenhou o cargo de engenheiro de minas da Direcção-Geral de Minas e Serviços Geológicos, desde 1927 até 1942, ano em que teve de deixar o referido cargo, por ter optado pelo de professor do Instituto Superior Técnico.

Durante aqueles anos, após breve passagem pela Repartição de Minas e pela Inspecção de Águas, trabalhou nos Serviços Geológicos; mesmo depois de ter abandonado o lugar antes citado, continuou a dirigir o laboratório de Química e Petrografia daqueles Serviços, até a doença o obrigar a cessar toda a actividade.

Em 1949 foi nomeado colaborador dos Serviços Geológicos, nomeação que não fez mais do que oficializar a colaboração que nunca deixara de prestar.

Em 1954, o Prof. Amilcar de Jesus viu-se coagido a abandonar toda a actividade docente e científica, por dolorosa e pertinaz doença de que veio a falecer, com a idade de 65 anos, seis anos mais tarde, em 26 de Fevereiro de 1960.

Depois de ter sido aluno, no País, de professores notáveis, como A. Freire de Andrade e Alfredo Bensaúde, o Prof. Amilcar de Jesus frequentou, em Paris, por numerosos períodos, o laboratório do Prof. Alfred Lacroix, onde se especializou em Petrologia.

A sua obra científica vai ficar marcada pela influência profunda que aqueles três eminentes mestres exerceram sobre ele. Não é ela muito extensa mas, apoiada numa sólida formação química e geológica, inclui alguns dos trabalhos mais notáveis que conta a petrologia portuguesa.

Esta formação científica tão equilibrada patenteia-se, de modo notável, no seu estudo sobre os pegmatitos da região de Mangualde, que pode ser apontado como exemplo, quer do ponto de vista geológico, quer petrográfico e mineralógico.

O estudo dos minerais de Portugal continental, que infelizmente ficou incompleto, é outro exemplo de meticulosidade e de proibidade científica.

Em todos os seus trabalhos ficou bem patenteado o cuidado posto no estudo pormenorizado, fugindo às generalizações vagas, aliado a uma linguagem clara, mesmo elegante. Estas facetas ter-lhe-iam sido desenvolvidas por aqueles mestres; encontraram, todavia, um espírito que lhes era propício, infelizmente, em demasia.

Na realidade, o Prof. Amilcar de Jesus levou ao exagero as características citadas caindo, na última fase da sua actividade científica, no desânimo perante a dúvida no valor do conhecimento humano que, cremos, foi o motivo da pequena extensão da obra científica de um homem que aliou uma incansável capacidade de trabalho a uma rara formação científica.

Lisboa, Outubro de 1960