Palestra "Breve história da segunda missão Geopermica à ilha de King George, Antártida"

A palestra realizou-se a 19 de dezembro de 2016, no Auditório Carlos Ribeiro no LNEG - Polo de Alfragide

Orador: Pedro Ferreira

Resumo:

O projecto Geoperm II (Estudo geológico, geoquímico e do permafrost nas Penínsulas de Fildes e Barton, Ilha King George, Antártida) esteve de novo no terreno, com a realização de uma segunda campanha de campo.Durante os meses de Janeiro e Fevereiro de 2016, uma equipa de dois geólogos, constituída por Pedro Ferreira (LNEG) e João Mata (IDL-FCUL), superaram frio, vento, chuva e neve para com as suas ferramentas essenciais – martelo, bussola e GPS – poderem identificar e amostrar as rochas magmáticas aflorantes nas Penínsulas de Barton, Fildes (ilha King George) e numa área designada por Rip Point, esta já localizada na contígua ilha de Nelson.

Esta história, a ser contada em quatro capítulos, inicia-se com a descrição do cenário envolvente, com abordagens à importância do Grupo Polar Português (PROPOLAR), ao porquê do Tratado da Antártida e à descrição sumária da geologia deste continente polar bem como a sua evolução geodinâmica. Pontualmente, divaga-se e põem-se a nu tremendas injustiças, como aquela que toca o famoso navegador português Fernão-de-Magalhães, famoso e idolatrado em terras da América do Sul, que, e comparativamente, se lhe atribuíssem mérito semelhante ao que presentemente se dá ao nosso CR7, seria considerado por cá um autêntico Herói Nacional.

O segundo capítulo descreve a geologia da Península de Barton que é enriquecida através de pequenas, mas interessantes, narrativas, muito variadas nos temas abordados, como por exemplo: o orgulho e brio ao observar-se a nossa bandeira Portuguesa hasteada à entrada da base científica Sul-Coreana King Sejong, que nos acolheu; a ubiquidade do arroz e de muitos produtos naturais veganos, não identificados, mas presentes nos hábitos alimentares dos Sul-Coreanos; o comportamento evolucionado e altamente complexo das aves apelidadas de Skuas que pela primeira vez é registado em imagem vídeo; a admiração pelas Andorinhas-do-Árctico, pequenas aves com pouco mais de 100g de peso que durante a sua vida voam uma distância total correspondente a cerca de 3 viagens ida-e-volta à lua; como a vida humana está no fio da navalha quando navega de zodiac nesta região; o blizzard, com rajadas perto dos 150 km/h, que por dois dias impediu a saída de qualquer cientista da base científica.

O terceiro capítulo muda-se de armas e bagagens para 10 km mais a Sul, para a Península de Fildes (base científica Chilena Prof. Julio Escudero) que, geologicamente, já se encontra inclusa num distinto terreno tectónico (Fildes Block). Aqui uma sucessão de intercalações de rochas piroclásticas com bancadas lávicas, de composição maioritariamente basalto-andesítica, constitui a maioria da área aflorante. No entanto, bancadas de cinzas vulcânicas e uma extensa quantidade de filões foram igualmente cartografados e amostrados. Neste capítulo, relata-se a experiência vivida pelos geólogos numa missa realizada na igreja ortodoxa Russa, com a finalidade de expurgar as exaltações resultantes das acesas discussões científicas que alguns afloramentos suscitaram. Mas não se fica por aqui! Descreve-se como uma pequena visita à ilha de Nelson permitiu que os geólogos contribuíssem com o estabelecimento de um novo record de longevidade para o Petrel-Gigante-do-Sul e, igualmente, acompanhassem uma importante descoberta realizada por uma equipa de paleontólogos Chileno-Brasileira que descobriu, no interior de uma bancada de rochas piroclásticas, folhas fósseis de Nautophagus (de uma árvore semelhante ao carvalho). Esta descoberta suporta a teoria da existência de “land bridges” entre a Antártida e a América-do-Sul, no final do Cretácico.

Finalmente no quarto capítulo, em tom de epílogo, recua-se na história para reflectir na extraordinária capacidade humana de sofrimento ao abordar as autênticas epopeias nesta região polar, protagonizadas por Scott, Amundsen e Shackleton, nomes incontornáveis na conquista do Pólo Sul. No entanto, menos conhecida é a história da contribuição de Scott para a progressão do conhecimento geológico, na época em que uma teoria se forjava na mente de um homem que iria revolucionar totalmente o pensamento geológico.

Nota biográfica:

Pedro Ferreira é geólogo do LNEG (Unidade de Geologia, Hidrogeologia e Geologia Costeira), licenciado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e com doutoramento obtido em 2007, na área da petrologia e geoquímica, no National Oceanographic Centre, Southampton. A sua actividade científica tem sido realizada nos fundos oceânicos associados à Crista Média Atlântica da região dos Açores, no Complexo Ígneo de Beja (zona de ossa morena) e, mais recentemente, no vulcanismo associado ao arco vulcânico do Arquipélago das Shetland do Sul (Antártida). Realiza presentemente cartografia geológica à escala 1/25 000 na folha 43-A, Cuba, no âmbito de um projecto nuclear do LNEG – Investigação da infraestrutura geológica e da base de recursos geológicos - Cartas Geológicas de Portugal.

Destinatários:

Todos os interessados nesta temática.

Data e hora:

19 de dezembro de 2016 das 15:00h às 16:00h.

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